O ICEBERG DE NIÚKHIN - Entre Tchekhov e Freud.


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”.


(A. Tchekhov)



Anton Pavlovitch Tchekhov nasce em 1860, na pequena cidade de Taganrog, Rússia, e passa a infância imerso na convivência de uma família numerosa, sob o pulso firme do pai, dono de uma pequena mercearia. Ainda jovem, Tchekhov assiste à ruína econômica do pai, o que obriga toda a família a se mudar para Moscou, na tentativa de refazer a vida. Tchekhov, no entanto, permanece em Taganrog, a fim de concluir seus estudos no Liceu. A distância do pai lhe permite investir nas áreas que sempre foram de seu interesse: a literatura e o teatro. Ao se mudar para Moscou, para ingressar na escola de medicina, três anos depois, Tchekhov já levava consigo alguns contos escondidos na bagagem. 

Como escritor, Tchekhov viria a diferir muito do médico que, de fato, veio a se tornar. Para o escritor, não havia receitas que curassem o sofrimento dos homens, ele apenas os constatava através dos cuidadosos retratos que engendrou na sua obra literária. O escritor voltou o seu olhar para a importância das coisas desimportantes, acreditava que na banalidade da vida a alma humana revelava os seus conflitos trágicos. Através de seus contos e peças, Tchekhov ridicularizou os costumes de sua época e desnudou as paixões e impossibilidades do homem russo de forma tão magnânima que a sua obra, universal, nos toca diretamente até hoje.

Tchekhov, assim como Freud, foi um profundo e arguto observador da natureza humana. O homem e suas pequenas covardias, seus desejos mesquinhos, seus desvios, as paixões que resultam em falência, os sonhos que são dolorosamente abandonados, são temas importantes em sua obra literária e dramatúrgica. Em Tchekhov, as coisas do mundo são cômicas e trágicas ao mesmo tempo; fica evidente que, no homem, forças opostas se interpõem, há conflito, paixão e paralisia. Pode-se falar de Tchekhov usando-se a expressão poética de Paul Valery: “os acontecimentos são a espuma das coisas. Mas é o mar que me interessa. É no mar que se pesca; é sobre ele que se navega; é nele que se mergulha...” Tchekhov inclina-se sobre o mesmo mar que encantou Freud, persegue a suspeita de que sempre há algo mais além da superfície da consciência.

No monólogo curto Os Males do Tabaco (1902), Tchekhov já anuncia a força do dramaturgo que está por vir. Ele retrata o pobre e infeliz Ivan Ivánovitch Niúkhin, diante de uma plateia de cientistas, disposto a palestrar sobre os malefícios que o uso indiscriminado do tabaco pode ocasionar à saúde do usuário. A cena poderia nos remeter ao próprio Freud, que também ministrou inúmeras conferências, também se reportou a cientistas e acadêmicos (sendo ele próprio também um médico), para lhes contar as misteriosas novidades de suas descobertas quanto à existência de uma instância obscura da psique humana: o inconsciente. No entanto, as semelhanças entre as conferências de Freud e a conferência ministrada pelo personagem tchekhoviano acabam aí. O caso é que Ivan Ivanovitch Niúkhin mal consegue ministrar a sua conferência. Algo o impede. 

Niúkhin é um homem de gestos majestosos, vestindo um fraque surrado. Apesar de não se interessar pela academia, ou pela ciência, confessa que passou os últimos trinta anos de sua vida escrevendo e trabalhando em artigos científicos. Inaugura-se desde aí a sensação de uma vida vivida em vão, sem conformidade com o desejo, o que, no dizer do próprio personagem, acarreta prejuízo para a saúde. Desde o início nota-se, portanto, a discrepância entre o seu mundo interno e a realidade.

Níukhin, apesar de ser ele mesmo fumante, foi obrigado pela mulher a palestrar sobre os malefícios do tabaco. Sua mulher, que permanece no fundo do auditório assistindo à palestra, tem um temperamento forte, o insulta constantemente e o obriga, dentre outras coisas, a alternar períodos de fome e períodos em que precisa comer todo o resto da comida do pensionato feminino que ela mantém, junto a uma escola de música. 

Essas informações vão sendo trazidas à tona lentamente no monólogo, à medida que Níukhin se apresenta e discorre sobre os objetivos da palestra. Diante da atenção de sua plateia, ele começa a queixar-se da vida, da mulher autoritária, das sete filhas que precisa criar e que o desprezam, enfim, do seu inferno particular. Por mais que tente ater-se ao seu compromisso com o tema antitabagista, há algo que vaza de suas palavras. Podemos perceber, através da descrição de Tchekhov, três instâncias que trabalham entre o conflito e a cooperação na cena: o próprio Níukhin e o seu pedido de socorro, a plateia que lhe assiste e a mulher no fundo do auditório. A presença da plateia poderia ser lida quase como que tomando o lugar do analista, que através do silêncio de sua escuta possibilita o trabalho analítico; enquanto Níukhin debate-se entre a palestra que deve ministrar e o seu descontentamento indomável em relação à sua mulher. É importante considerar que, ao fundo do auditório, está presente a própria mulher de Niúkhin, que o inibe, pressiona, reprime. 

Freud, em sua primeira tópica, defende a existência de dois polos no aparelho psíquico, sendo um sensorial e um motor. Entre esses polos, percorrendo, respectivamente, do primeiro ao segundo, existem três instâncias: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. O consciente abrange as informações para as quais o indivíduo volta a sua atenção em um determinado instante; o pré-consciente armazena dados imperceptíveis em dado momento, mas que podem ser resgatados pela consciência; o inconsciente é o guardião de um vasto conteúdo que fica armazenado em traços mnêmicos. 

Níukhin, consciente, precisa discorrer sobre os malefícios do tabaco, mas o seu próprio corpo o impede. Ele sintomatiza. Níukhin pisca o olho de forma incontrolável, tem acessos de tosse. O próprio personagem credita o fato à sua ansiedade. O preço de sua autocensura começa a ficar alto demais e o seu corpo encena o que não encontra palavras para simbolizar, mas que já não pode mais conter. O seu desespero diante da mulher que o observa e atormenta, o desprezo que nutre pela sua própria família, os maus tratos aos quais está submetido fazem parte de uma realidade dura demais, quase insuportável, e a gama de desejos que advêm dessa situação são reprimidos por serem tidos como condenáveis. Níukhin, inconscientemente, precisa que a mulher o reprima, que quase o livre do peso de ser ele mesmo. A presença dela, ao fundo do auditório, o perturba e alivia. 

O modelo do aparelho psíquico proposto por Freud é marcado por seus aspectos dinâmico e econômico. É possível que haja movimento de informações entre as instâncias consciente, pré-consciente e inconsciente. As informações pré-conscientes podem chegar à consciência; o material inconsciente, após atravessar o pré-consciente, também pode emergir. O pré-consciente funciona, portanto, como uma barreira de defesa do aparelho psíquico, selecionando as informações que podem atravessá-la. Informações que causam desprazer à consciência são recalcadas, ou seja, suprimidas. A repressão é um mecanismo mental inconsciente, pelo qual as ideias ou impulsos indesejáveis para a consciência são suprimidos. O material reprimido, no entanto, continua a fazer parte da psique e, apesar de reprimido, pode vir a causar sintomas. O consumo de energia para a manutenção dos conteúdos reprimidos é intenso. 

Os incômodos psíquicos, entretanto, fatalmente vão se tornando, aos poucos, acessíveis. Níukhin conhece a sua realidade, mas, como a maioria dos personagens tchekovianos, já não tem forças para transformá-la. Está adoecido. Algo muda, no entanto, quando a mulher de Níukhin se ausenta do auditório. É como se os processos excitatórios ocorridos no pré-consciente pudessem, finalmente, emergir. Níukhin pode, distante da mulher dominadora, liberar a energia que estava, a custa de tanto prejuízo, mantendo represada. Níukhin então desabafa, confessa o seu sofrimento, o seu desespero. Tchekhov assinala, através do personagem, os abismos que pode haver entre o mundo interno de um indivíduo, a sua subjetividade, e o que de fato esse indivíduo é capaz de permitir que venha à tona. As pontes que se estabelecem entre as instâncias psíquicas podem ser percorridas de forma intensa, quando o conteúdo reprimido acha o seu caminho até a superfície e é liberado de forma catártica. Quando a mulher de Níukhin se ausenta por um instante do auditório, o seu conteúdo latente encontra o espaço que precisa para atingir a superfície. 

Nas palavras de Níukhin: “Comigo nada dá certo, envelheci, estou gagá... Fazendo aqui esta conferência pareço estar alegre, mas no íntimo tenho ganas de gritar até perder a voz ou sair voando pra algum lugar no fim do mundo.”

Quando diz que já não precisa de nada, quando manifesta o seu desejo de fugir para “algum lugar bem longe no campo”, onde pudesse deixar de ser, abandonar a luta e transformar-se “em árvore, em poste, num espantalho de pássaros, a céu aberto”, a personagem demonstra que se deixou vencer pela dor. O seu desejo sucumbiu, ou ainda, é só o desejo do desaparecimento que o acalenta. Níukhin quer esquecer a “vida suja, vulgar e miserável” que o tornou um “velho, desprezível idiota”, mas sabe intimamente que essa fuga é impossível. Níukhin, estando impossibilitado de liberar a sua agressividade diante da situação em que se encontra, faz com que o desejo de desaparecimento se volte contra si próprio. E clama que não precisa de nada, “nada, a não ser paz”. Sem conseguir equacionar os seus impulsos e frustrações, esse homem adoece. Níukhin abdica do seu desejo, por temê-lo demasiadamente. A paz que busca, certamente, é a que pode ser encontrada nos cemitérios. Está exausto do “jogo da vida”, não pode mais suportar a tensão dinâmica que esse “jogo” exige. A fuga que Níukhin pranteia é a fuga de si mesmo, o que não é possível. Toda a dimensão do iceberg que Níukhin procura esconder começa a ser denunciada por suas palavras. 

Níukhin chega a despir o seu velho fraque e a pisotea-lo, com fúria. Está desnudo diante de sua audiência, livrou-se do peso do passado que a roupa envelhecida representa, permitiu-se mostrar aos outros e a si mesmo um pouco do seu vigor e de sua angústia. Aí se pode pensar que algo pode acontecer, uma mudança. No entanto, quando a mulher retorna ao auditório, vemos um Níukhin que rapidamente se recompõe, que atabalhoadamente tenta adentrar o tema da conferência e que trêmulo, ao perceber que já não há mais tempo (para ministrar a conferência, ou para salvar-se?) caminha infeliz para o destino ao qual se atribuiu: a perpétua infelicidade compartilhada ao lado da esposa e das sete filhas. 

Tchekhov era um médico e um intelectual, portanto é possível que tenha tido acesso aos escritos de Freud, já que A Interpretação dos Sonhos teve sua primeira publicação em 1900 e Anton Tchekhov conclui a segunda versão (aqui analisada) de Os Males do Tabaco em 1904. Saber se Tchekhov teve ou não contato com a obra freudiana é um detalhe irrelevante diante da maestria com que descreve a sua cena e o sofrimento psíquico do personagem Níukhin. É evidente que a psicanálise e a literatura traçam seus caminhos de forma diferente, mas o que as entrelaça de forma tão interessante é justamente a atenção dada à subjetividade humana, o olhar arguto e profundo sobre o homem. Dá-se a ver com clareza imensa, em Os Males do Tabaco, a inquietante constatação professada pelo próprio Freud em “Atos Casuais e Sintomáticos”, onde escreve que “Também no campo dos atos sintomáticos a observação psicanalítica tem de conceder prioridade aos autores literários. Ela só consegue repetir o que eles já disseram há muito tempo”.





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