Apagão


(Armando está lendo, Helena entra afobada)

- Armando, por quê a tigela de comida do gato estava do lado da planta?

- Não sei, Helena. Provavelmente, eu aguei o gato e alimentei a planta.

- O que está acontecendo, Armando?

- Eu estou confuso, Helena. Não aguento mais ficar preso em casa. Eu já li reli toda a minha coleção de Tesouros da Juventude.

- Me ajude a arrumar a casa.

- Não quero, Helena. Não quero gastar energia com isso.

- Prefere gastar se angustiando, né?

- Talvez! Eu tenho pensado muitas coisas...  Por exemplo, agora há pouco, eu estava pensando que não passamos de uma gigantesca colônia de bactérias. Todos nós.

- Ai, meu Deus, Gustavo.

- Você me chamou de Gustavo?  Você está me traindo, Helena?

- Não! É muito pior. Eu esqueci seu nome.

- Meu nome é Armando, Helena!

- Calma! Eu ando muito nervosa. Já são muitos dias trancados. Eu nem sei mais que dia é hoje.

- Nem eu.

- Deu um apagão.

- Eu sei como é.  Calma. Vem cá. Me abraça.

- Essa pandemia expôs a nossa fragilidade, Armando. A gente não sabe o dia de amanhã.

- Eu te amo.

- Amar é enlouquecer juntos.

- Que bonito isso.

(A luz se apaga)

- O que foi isso?

- Um apagão.

- Armando, você lembrou de  pagar a conta de luz?

- ...

 

Não faz Sentido


No meu país, começamos o isolamento social em 16 de abril de 2020. Já estamos em 14 de junho de 2021 e ainda não saímos. A maioria dos países estabeleceu um lockdown e conseguiu frear o vírus, mas por aqui os políticos não quiseram comprar a briga com os empresários e nós estamos em quarentena há mais de um ano. Vai ser necessário que 100 milhões de pessoas peguem o vírus para que a gente consiga a imunidade de rebanho. Ontem, 90 milhões de pessoas estavam contaminadas. Pra frente, Brasil.

Eu não saio de casa há oito meses. Ninguém conta mais. As noites se derramam e se misturam com os dias. Nada faz sentido. Eu tenho conversado com alguns amigos que dizem que nada fazia sentido aqui mesmo antes do vírus. Todo mundo já acabou com a Covid, menos a gente. Mas nós também fomos os últimos e acabar com a escravidão.  Isso aqui está muito pessimista, eu sei. Mas faço lives. I’m alive. Ainda.

No início, as pessoas diziam: vai passar. Mas daí, nos demos conta que a nossa vida também estava passando. Isso não ajuda. É preciso tomar providências. O presidente pegou a doença no fim de 2020. Ele fez um churrasco que vinha prometendo desde maio e foi contaminado. Quando recebeu o resultado positivo saiu correndo pelas ruas cuspindo nas pessoas e a polícia teve permissão para atirar. O vice assumiu em seguida, mas não ficou muito tempo no cargo.

Não sei quem é o presidente atual. Há muito tempo não falo com ninguém. Esse país é muito esquisito. Esse país me deixa com falta de ar. Esse país comprova que ignorância mata. Vai passar?

 

 


Saudade

Eles já não se viam há seis meses. Mas aí, veio a pandemia de Covid, o isolamento social, e ele se pegou pensando nela. Ele tinha a desculpa perfeita para uma reaproximação, o mundo estava acabando, queria saber como ela estava. Soou educado. Ela não achou. Assim que reconheceu a voz dele do outro lado da linha, desligou. Mas e se ele estivesse doente? Ligou novamente. Iniciaram um papo. Combinaram de falar de novo amanhã.

Muita coisa havia mudado nos seis meses em que estiveram afastados. Ela mudou de emprego, ele adotou um cachorro. O peixe dela morreu. Ela tinha um peixe? Tinha, mas comprou depois que já tinham terminado.

- Qual era o nome do peixe?

- Saudade.

O nome do peixe não era saudade. Era Cirilo. Mas ela já tinha tomado algumas taças de vinho e achou que ficaria bonito dizer aquela palavra. Ele entendeu o recado. Na ligação seguinte, foi direto ao ponto:

 - Como você está vestida?

A partir daí muitas palavras quentes se derramaram. Por muitas horas. Por muitos dias. E vieram as juras de amor. Nada será como antes.

Acabou a pandemia. Combinaram de se encontrar. Foram muito felizes por duas semanas. Até que, exatamente como da última vez, na mesma sorveteria (ah, essas coisas se repetem) ele fez um comentário sobre um barulho que ela fazia quando tomava sorvete. O mesmo comentário da briga anterior. Ele nem lembrava. Ela não admitia, não se fala esse tipo de coisa. Ele não tem respeito pelos outros. Ela não tem humor. É uma chata. É um grosseiro. É insuportável. Vamos ficar por aqui.

- Logo agora que podemos nos ver...

- Pois é. Romeu e Julieta já nos mostraram a força de um amor proibido.

Ele era professor de literatura inglesa. Ela sorriu. Talvez se tornassem amigos. Na próxima pandemia.


A Princesa Coroada


Eles já estavam há setenta dias no mar. A Princesa Coroada singrava os mares grávida de mil quatrocentos e vinte tripulantes de várias nacionalidades que partiram da África do Sul rumo às Ilhas Gregas, mas que tiveram, por força da pandemia de Covid-19, que alterar a rota para o Brasil.

Presos na embarcação, os tripulantes já não eram mais companheiros de viagem. Se tornaram irmãos. E, como irmãos, tinham que se suportar. As brigas eram inúmeras e por qualquer motivo. O stress da situação, o confinamento, a incerteza, o medo faziam com que palavrões fossem berrados a todo momento, em muitos idiomas.

Emílio e Sara estavam na cabine sessenta e seis e há muitos dias não saiam. Foi a Armênia que, num momento de tédio extremo, falou em inglês um pouco alto, de forma que várias pessoas no convés da piscina ouviram: onde está aquele casal simpático, os brasileiros?

- Quais brasileiros? Perguntou uma espanhola.

- Emílio e Sara.

Mas Emílio e Sara já dormiam, de mãos dadas, na cabine.

Dias antes, Emílio conversou seriamente com Sara, sobre a sua decisão. Claro que quando saíram do Brasil, o plano não era esse. Mas quando saíram do Brasil, o plano também não era errar sem porto, o plano não era uma pandemia. O fato é que agora estavam os dois velhos, num barco, sem ter onde aportar. Estavam os dois velhos, apaixonados, no meio do mar. Estavam os dois velhos, aterrorizados, no meio de um caos. No meio de um sonho de conhecer as ilhas gregas.

Emílio disse para Sara que queria navegar outros mares mais misteriosos.

- São oitenta e seis anos, Sara, de busca.

Emílio se calou e olhou o mar. E agarrou a mão da esposa. O casamento que o ajudou a atravessar os anos, as tempestades dos anos.  Emílio era um barco singrando o tempo, havia encontrado alguma rocha de paz.

- E agora chega. Estou cansado.

Sara sentiu que o desespero ia toma-la. Ela queria se atirar nos braços dele. Mas ele abriu um sorriso tão brilhante, que a desarmou.

- Eu vou contigo.

- Não...

Emílio tentou argumentar, mas não havia o que ser dito. Viver é poder decidir.

O encarregado, depois de pedir licença muitas vezes, resolveu abrir a porta da cabine 66. Ao ver a cena, dirigiu-se ao comandante e explicou a situação. O comandante disse, apenas:

- Ainda mais essa.

Ao descer para a cabine, o homem não podia deixar de pensar nas questões práticas. Mas Emílio havia deixado um bilhete, junto com os passaportes, com recomendações claras:

- Por favor, nos lancem ao azul.

Isso tranquilizou o comandante. Mas em seguida ele ficou por intranquilo por ter ficado tão tranquilo diante dos corpos e começou a chorar.

Foi nesse exato momento que um viajante entrou na cabine e viu a cena. A notícia se espalhou como cinzas ao vento. Em pouco tempo, todos vieram, se amontoaram. Estavam Emílio Francisco Ribas e Sara Santos de Alencar, vestidos com suas melhores roupas, ele com terno branco que ia passar o réveillon nas ilhas gregas, ela com o vestido rosa guardado para a mesma ocasião, abraçados na cama. Na mão dela havia uma flor.

O silêncio no quarto só era interrompido por algumas interjeições de espanto e pesar, até que um francês despejou algumas palavras:

- Isso é que é amor.

A Armênia protestou, veemente:

- Isso não tem nada a ver com amor!

- É falta de fé. Disse um italiano.

- Amor não tem nada a ver com isso, prosseguiu a Armênia. Ora, veja só. Eu tenho setenta e seis anos, imagine se eu vou...

E se calou diante do horror do pensamento.

A partir daí, sugiram muitos debates na embarcação. O certo, o errado, o fim, os inícios, tudo colocado em xeque. Enquanto vagavam pelo mar esperando algum porto que os acolhesse, todos os passageiros colocaram a própria vida em retrospectiva. Parar ou seguir? Essa parecia ser a única questão filosófica relevante, lembrou um francês. A questão da felicidade também foi amplamente debatida.

Quando avistaram a costa brasileira, um russo lembrou os versos de Maiakovski:

- Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz.

- Emílio e Sara eram brasileiros, lembrou alguém.

- Idiotas. A Armênia ainda não os tinha perdoado.

Mas todos os outros passageiros no convés sorriram um sorriso de fim de tarde.

Atualmente, a Princesa Coroada, transatlântico com mil quatrocentos e vinte passageiros menos dois, se encontra ancorada na cidade de Salvador, na Bahia de Todos os Santos. A maioria dos passageiros gosta desse nome. Eles ainda não têm autorização para desembarcar, mas as brigas cessaram.