Aí, a vida me perguntou e eu disse sim.

-Tem certeza?
-Sim.
-Vai doer, dá trabalho, aquela coisa toda que você já sabe...
-Sim.
-No centro de uma sala negativa?
-Sim.
-Morrendo de medo?
- É. Sim.
- Em meio a um universo de improbabilidades?
-Sim. Sim.

(A vida me perguntou e eu disse sim.)
Tudo é nascente e som,
Tudo sobe:
Gotas de chuva, cachoeiras.

Tudo em seu derradeiro tom,
Tudo chove:
Semblantes, selvas, palavras.

Outro Sonho


O homem invisível apanhou o seu chapéu invisível e saiu pelas ruas.
A casa vazia não sente a sua falta.
O cão invisível desistiu de esperá-lo, ele nunca voltou.
As montanhas, as pontes, as portas o viram e esqueceram.
Apenas paredes nuas guardam o seu retrato.
O homem invisível desfez-se sem ter sido mais que um sonho,
um sonho que morreu na noite de um homem real.

Mágoa


Toda palavra pode vazar.
Qualquer palavra vai doer para sempre.
Qualquer palavra seca há de afogar-me.
Cada palavra será mágoa,
Toda palavra será resto.
Não diga nada, toda palavra sobra, toda palavra sangra, cada palavra ferve.
Não diga nada, eu pairo em silêncio e cada palavra será chumbo.



Milagres


Tenho visto milagres:
certos olhares que se não me desvendam a alma (posto que é indevassável), pelo menos a presentificam;
uma criança crescendo;
o tempo passando no meu rosto,
na tinta esmaecendo na parede,
em tudo que é matéria (único habitat do tempo).

São Paulo, 2012