Uma peça curta


Ela (chorando): O mundo tal qual conhecemos nunca mais vai ser o mesmo.
Ele (sorrindo): O mundo tal qual conhecemos nunca mais vai ser o mesmo.

Os dois param um tempo. Ela parece pensar.

Ela (sorrindo): O mundo tal qual conhecemos nunca mais vai ser o mesmo.
Ele (enquanto lhe escorre uma lágrima): O mundo tal qual conhecemos nunca mais vai ser o mesmo.

Os dois param um tempo. Se entreolham longamente.


FIM

Há os que se tornam muros

E já nada lhes atravessa.

Um encontro


Hoje fui ao mercado e um menino me pediu pra comprar uma Coca Cola pra ele. Eu comprei e quando fui lhe passar a garrafa, ele deu um jeito de segurar a minha mão. Uma criança precisa segurar a mão de um adulto, às vezes. Isso é constitutivo. Eu segurei a mão dele tentando lhe garantir algum conforto, alguma segurança. Ficamos assim algum tempo, daí ele me largou. Espero que eu tenha sido uma boa mãe relâmpago pra ele, naquele breve encontro no mercado. Tem horas que a gente experimenta na carne que cada criança que nasce é responsabilidade da humanidade inteira e que existem esses poderosos pontos de intersecção que nos unem com a força dos séculos. Espero que a marca do afeto e do cuidado tenham sido profundamente introduzidas na alma daquele menino e que ele nunca esqueça que sempre haverá uma mão humana para lhe guardar. Quanto a mim, ele me salvou. 

 


Osiris

O arranha-céu ia se chamar Osiris, em homenagem ao antigo deus egípcio, responsável pela força do solo.

Apesar da homenagem ao Egito antigo, a verdade é que a pior coisa que pode acontecer a uma construtora é se deparar com um sítio arqueológico. Foi justamente o que aconteceu com Justino. No momento das escavações, um operário se abaixou e puxou alguma coisa da terra.

- Que diabo é isso?

O engenheiro ouviu, pediu pra ver. Ficou em dúvida.

- Isso é um artefato, disse indeciso.

O pedaço de cerâmica circulou de mãos em mãos, até que um pedreiro sentenciou, firme:

- É um cachimbo.

O óbvio só se torna óbvio depois que alguém descortina a obviedade.

- É óbvio, disse o engenheiro.

E tocaram a chamar o Iphan, para que tivessem uma pista de como o cachimbo fora parar ali. E fizeram tudo isso sem avisar ao Justino, dono da construtora. Quando Justino soube do imbróglio, o técnico do Iphan já havia diagnosticado que o cachimbo era mesmo um cachimbo, e que, por suas formas e cores, devia ter cerca de onze mil anos.

- É um milagre.

- É uma desgraça.

E enquanto o técnico do Iphan (e o engenheiro) choravam de emoção diante da antiguidade da peça, Justino chorava pensando no prejuízo de interromper a obra.

Paciência, Justino, o mundo não é justo.

Osiris, o deus egípcio, talvez não quisesse que naquele solo se erguesse, em sua homenagem, um edifício. Pelo contrário, queria que as escavações (agora mais cuidadosas, feitas por arqueólogos) revelassem outros artefatos e um crânio humano, sinais de que ali, há muitos anos, viveram pessoas. E porque ali havia vestígios do passado, o terreno deveria ser respeitado. A obra foi embargada por tempo indeterminado. Todas as noites, Justino se queixava para a sua família, na hora do jantar:

- Mas e o meu arranha-céu?

Ao que sua filha, adolescente, respondia enfadada:

- Ai, pai, arranha-céu, que coisa mais antiga.