Pouso


Para me aninhar nos teus braços percorri mil oceanos,
As águas profundas de mim mesma.
Até dormir a teu lado passei as noites em claro,
Percorri os subterrâneos.
Para ver os teus olhos tive que descobrir os meus,
Meus olhos pousados sobre pedras quentes.
Chegar a ti foi tudo o que fiz. E foi o bastante. 

Cura


Uma mulher me recebeu enquanto eu estava doente.
Talvez o meu sangue tenha lhe molhado um pouco os cabelos
Eu pensei que a amava, enquanto estava doente.

Continuo dobrando esquinas e destinos,
permaneço cansado diante de tudo,
mas seus olhos grandes, claros e fixos
acenderam as luzes daquela manhã e de outras.

Minha alma já não me pertence.
Trago a memória da respiração de uma mulher
e já não quero morrer.

Amor



Te amo como a moça que arde em febre e não dorme,
Por longos corredores desertos,
Muito antes de te amar.
Te amo como a um filho, um irmão.
Como alguém partindo, como quem consente.
Te amo como quem se cura de uma doença grave,
Como quem antes chorava pelos cantos da casa.
Te amo como o sol nos pátios dos sanatórios, dos presídios,
E entre os rostos de vidro dos santos nas catedrais.
Te amo como quem divide um segredo ou entende uma história.
Como quem precisa, por um período longo ou curto de tempo, ouvir o som de sua voz.
Como se sua voz fosse luz.
Como se falássemos um idioma que só nós conhecemos.
Como se só nós soubéssemos que horas são e a que horas o sol vai nascer.
Como alguém que acabou de lembrar que é feito de lembranças.


João



Ninguém escreve ao coronel. Sua solidão, assim como as suas terras, é vastíssima.
E viver é isso mesmo: Ir-se partindo, perdendo os meios, os inícios. No fim restam ossos e loucura. Coronel ficou louco, dizem. Sonhou com o diabo, até. Mas sonho é sonho, outra coisa que se perde.
Coronel fica espreitando o escuro. Deus nunca responde. Naquela época nem sabia que havia a morte, os frios. Um dia Deus manda recado, sua presença se faz notar, nem que seja numa florzinha, coisinha pequena, até num bicho dá pra ver Deus firme ali, no mato.
Estrada caminhada em silêncio.
Nunca mais viu Mariinha. Também não voltaram a juventude nem a esperança. Viver é ir se perdendo. Estrada que já acaba.
A estrada de Mariinha, seus verdes anos, cheia de risadas, de lua e sol. Saudade imensa.
O coronel fecha-se em bois e silêncios. Essas entranhas ruins. De noite, o seu peito vazio pesa como pesa o nada, o grande peso da ausência, maior que todos os outros.